Nogueira Jr.

Poema & CIA

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Carta à República

“Sim é verdade, a vida é mais livre
o medo já não convive nas casas, nos baress, nas ruas
com o povo daqui
e até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo
mas eu não posso esconder a armagura


ao ver que o sonho anda pra trás
e a mentira voltou
ou será mesmo que não nos deixara?
a esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol
o que fizeram da nossa fé?


Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
eu saí pra sonhar meu País
e foi tão bom, não estava sozinho
a praça era alegria sadia
o povo era senhor
e só uma voz, numa só canção


e foi por ter posto a mão no futuro
que no presente preciso ser duro
que eu não posso me acomodar
quero um País melhor”
Milton Nascimento / óleo sobre tela: Mauricio Arraes

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A canção do albatroz

“Sobre a superfície cinzenta do mar,
O vento reúne
Pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro,
Entre as nuvens e o mar,
Paira orgulhoso o albatroz,
Mensageiro da tempestade.
E ora são as asas tocando as ondas,

Ora é uma flecha rasgando as nuvens,
Ele grita.
E as nuvens escutam a alegria
No ousado grito do pássaro.
Nesse grito – sede de tempestade!
Nesse grito – as nuvens escutam a fúria,
A chama da paixão,
A confiança na Vitória.(…)


Uiva o vento… Ribomba o trovão…
Sobre o abismo do mar,
Um monte de nuvens pesadas
Brilham como centelhas.
O mar pega as flechas de relâmpagos
E as apaga em sua voragem.
Parecem cobras de fogo.
Os reflexos desses raios,


Rastejando sobre o mar e desaparecendo.
_ Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!
Esse corajoso albatroz
Paira altivo entre os raios
E sobre o mar furiosamente urrando.
Então grita o profeta da Vitória:
QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!”
Máximo Gorkii / Fotos: Claudia Andujar

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Salas das mulheres de parto

“Mulheres mais pobres de Berlim
-em quarto e meio treze filhos,
reclusas, putas, marginais-
gemem aqui, ventre a torcer-se.
Em parte alguma se uiva assim.
Em parte alguma à dor, desdita,
mais indiferença pode ver-se,
aqui há sempre algo que grita.


Mulher, avie-se! Tá a perceber?
Não está aqui para o prazer.
Nem deixe as coisas arrastar-se
se nesse parto vai borrar-se!
Não está aqui para o descanso.
Não vem por si.Dê-lhe um avanço!’
Ei-lo: pequeno e arroxeado.
De fezes e mijo vem untado.


De onze camas, sangue e choro,
sai gemedeira em saudação.
Só de dois olhos rompe um coro
de aleluias que ao céu vão.


Tudo esta peça de carne há-de
conhecer: dor, felicidade.
E se o estertor um dia exala
inda há mais doze nesta sala.”

Gottfried Benn, trad.Vasco Graça Moura / Fotos: “A Marcha dos Pingüins”, Documentário

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Sonetos


Lanço-me ao leito, exausto da fadiga,
Repousa o corpo ao fim da caminhada;
Mais eis que a outra jornada a mente obriga
Quando é do corpo a obrigação passada.

A ti meu pensamento – na distância –
em santa romaria então me leva,
E fico, as frouxas pálpebras em ânsia,
Olhando, como os cegos vêem na treva.

E a vista de minha alma ali desvenda
Aos olhos sem visão tua figura,
Que igual a jóia erguida em noite horrenda,

Renova a velha face à noite escura.
Ai! que o dia o corpo, à noite a alma,
Por tua e minha culpa têm calma.

William Shakespeare / Tela: Pablo Picasso

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A Estrela

“Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.


Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Lunzindo no fim do dia.


Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?


E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.”

Manuel Bandeira / Óleos sobre tela: Roberto Bastos Cruz
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Deixa-me ouvir o que não ouço

“Deixa-me ouvir o que não ouço…
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada…

É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada…

Deixa-me ouvir… Não fales alto !
Um momento !… Depois o amor,
Se quiseres… Agora cala !

Tênue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala…


O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez… Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois…
Sim, torna a mim, e a paisagem

E a verdadeira brisa, ruído…
Vejo-me, somos dois…”

Fernando Pessoa / Fotos: Claudia Andujar, Deca Linhares

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O Senhor da Guerra (Última Estrofe)

“O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças

O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças

O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças

O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças
O senhor da guerra
Não gosta de crianças”
Legião Urbana / Fotos: Jorge Vismara

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Relógio, morre

“Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortelã com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?
Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos são vazios…

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloqüente
Da filarmônica de um Barreiro
Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede …
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,
Colcha de crochê do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao porto.”

Fernando Pessoa / Fotos: Eliandro Figueira

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Ieda

“Vossa formosa juventude Ieda,
Vossa felicidade pensativa,
Vosso modo de olhar a quem vos olha,
Vosso não conhecer-vos —

Tudo quanto vós sois, que vos semelha
À vida universal que vos esquece
Dá carinho de amor a quem vos ama
Por serdes não lembrando

Quanta igual mocidade a eterna pra De Cronos, pai injusto da justiça,
Ondas, quebrou, deixando à só memória
Um branco som de ’spuma.”
Fernando Pessoa / Fotos: Julio Kohl

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SIM


Vence na vida quem diz sim
Se te dói o corpo, diz que sim
Torcem mais um pouco, diz que sim
Se te dão um soco, diz que sim
Se te deixam louco, diz que sim
Se te tratam no chicote, babam no cangote
Baixa o rosto e aprende o mote, olha bem pra mim


Vence na vida quem diz sim
Se te mandam flores, diz que sim
Se te dizem horrores, diz que sim
Mandam pra cozinha, diz que sim
Chamam pra caminha, diz que sim
Se te chamam vagabunda, montam na cacunda
Se te largam moribunda olha bem pra mim


Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te erguem a taça, diz que sim
Se te xingam a raça, diz que sim
Se te culpam a alma, diz que sim
Se te pedem calma, diz que sim
Se já estás virando um caco, vives num buraco
E se é do balacobaco olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim
Letra: Chico Buarque /Fotos: Evandro Teixeira

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Festa


“A vida até parece um festa,
En certas horas isso é o que nos resta.
Não se esquece o preço que ela cobra,
Em certas horas isso é o que nos sobra.
Ficar frágil feito uma criança,
Só por medo ou por insegurança.


Ficar bem ou mal acompanhado,
Não importa se der tudo errado.
Às vezes qualquer um faz qualquer coisa,
Por sexo, drogas e diversão.
Tudo isso às vezes só aumenta


A angústia e a insatisfação
Às vezes qualquer um enche a cabeça de álcool
Atrás de distração
Nada disso às vezes diminui
A dor e a solidão

Tudo isso, às vezes tudo é fútil,
Ficar ébrio atrás de diversão.
Nada disso, às vezes, nada importa,
Ficar sóbrio não é solução
Diversão é solução sim,
Diversão é solução pra mim.”
(Titãs) Fotos: Edgar Nogueira

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