Nogueira Jr.

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Prosa: José Lins do Rego


Foto: Egberto Nogueira / Poema & CIA

Motivo

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edificou,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.”

Cecília Meireles


Poema: Mário de Andrade / Poema & CIA

Monotonias das minhas retinas

“Monotonias das minhas retinas…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…
Todos os sempres das minhas visões! “Bom giorno, caro.”

Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades…
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! Os tumultuários das ausências!
Paulicéia – a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
de pus e de mais pus de distinção…
Giram homens fracos, baixos, magros…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Estes homens de São Paulo,
Todos iguais e desiguais,
Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
Parecem-me uns macacos, uns macacos.”
Mário de Andrade


Fotos: Marcelo Corrêa, Luiz Garrido / Poema & CIA

…Vaga História


“…Vaga História comezinha
Que, pela voz das vozes, era a minha…


Quem sou eu? Eles sabem e passaram”
Fernando Pessoa


Ilustração: Renée Wagemans / Poema & CIA


Sim, já sei…

“Sim, já sei…
Há uma lei
Que manda que no sentir
Haja um seguir
Uma certa estrada
Que leva a nada.

Bem sei. É aquela
Que dizem bela
E definida
Os que na vida
Não querem nada
De qualquer estrada,

Vou no caminho
Que é meu vizinho
Porque não sou
Quem aqui estou.”
Fernando Pessoa


Foto: Marcelo Reis / Poema & CIA

Evadido
“Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser

Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.”
Fernando Pessoa


Arte: Roberto Magalhães / Poemas & CIA

Parece às vezes que desperto

“Parece às vezes que desperto
E me pergunto o que vivi;
Fui claro, fui real, é certo,
Mas como é que cheguei aqui?

A bebedeira às vezes dá
Uma assombrosa lucidez
Em que como outro a gente está.
Estive ébrio sem beber talvez.

E de aí, se pensar, o mundo
Não será feito só de gente
No fundo cheia de este fundo
De existir clara e èbriamente?


Entendo, como um carrocel;
Giro em meu torno sem me achar…
(Vou escrever isto num papel
Para ninguém me acreditar…)”
Fernando Pessoa


Fotos: Bruno Barbey, Sebastião Salgado, Anthony Sual

Caribantu

“Bate tantã, tambor
Bate pé no andor
Vamos bater perna
Vamos bota mais fé
É ou então não é

Que a vida é eterna
Vamos batê cabeça
Mexer cabaça
Sonar no oco do babaçu
Luz pra quem bebe auasca

Quem masca coca
Quem bebe e masca em Machu Picchu
Vez pra quem sofre e chora
Quem tá na escória


Quem tá por fora e dentro do Iglu
Som no tarol, na caixa
Sensor da malta caribantu”
Lenine


Fotos:Paulo Jares / Poema & CIA

Flores
“Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados


E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo


A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem”
(Titãs)


Neruda / Poema & CIA

Se cada dia cai

“Se cada dia cai

dentro de cada noite,

há um poço

onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira

do poço da sombra

e pescar luz caída

com paciência.”

Pablo Neruda


Foto: Marcelo Reis / Poema & CIA

Sou um evadido

“Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.”
Fernando Pessoa


Fotos:Ricardo Carvalho, Luis Jordão, F. Monteiro / Poema & CIA

É Doce Morrer No Mar


“É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza prá mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi prá mim
É doce morrer…
Saveiro partiu de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou
É doce morrer…

Nas ondas verdes do mar meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá
É doce morrer…”
Dorival Caymmi / Olhares


Ilustração: Bem Heine / Poema & CIA

Quando esta frio

“Quando está frio no tempo do frio,
para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.”
Fernando Pessoa / Ilustração: Bem Heine


Foto montagem: Marie Ange Bordas / Poema & CIA

Vou com um passo…

“Vou com um passo como de ir parar
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-‘star
A vaga chuva fria…
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer …


Sim, tudo esqueço.Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu …] vou,
Fantasma de magia.


No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anônimo persiste …
Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.”
Fernando Pessoa


Fotos: Jochen Dietrich / Poema & CIA

Pássaro

“Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.


Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.’
Cecília Meireles


Fotos: Ana Regina Nogueira / Poema & CIA

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva

“Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…”
Fernando Pessoa