Nogueira Jr.

Posts tagged “Poema

Foto: Egberto Nogueira / Poema & CIA

Motivo

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edificou,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.”

Cecília Meireles

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Paco Ibañez [Pablo Neruda], “Me gusta cuando callas…” / Em Movimento

From: Raulphotographe


Poema: Mário de Andrade / Poema & CIA

Monotonias das minhas retinas

“Monotonias das minhas retinas…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…
Todos os sempres das minhas visões! “Bom giorno, caro.”

Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades…
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! Os tumultuários das ausências!
Paulicéia – a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
de pus e de mais pus de distinção…
Giram homens fracos, baixos, magros…
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Estes homens de São Paulo,
Todos iguais e desiguais,
Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
Parecem-me uns macacos, uns macacos.”
Mário de Andrade


Foto: Marcelo Reis / Poema & CIA

Evadido
“Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser

Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.”
Fernando Pessoa


Arte: Roberto Magalhães / Poemas & CIA

Parece às vezes que desperto

“Parece às vezes que desperto
E me pergunto o que vivi;
Fui claro, fui real, é certo,
Mas como é que cheguei aqui?

A bebedeira às vezes dá
Uma assombrosa lucidez
Em que como outro a gente está.
Estive ébrio sem beber talvez.

E de aí, se pensar, o mundo
Não será feito só de gente
No fundo cheia de este fundo
De existir clara e èbriamente?


Entendo, como um carrocel;
Giro em meu torno sem me achar…
(Vou escrever isto num papel
Para ninguém me acreditar…)”
Fernando Pessoa


Fotos: Bruno Barbey, Sebastião Salgado, Anthony Sual

Caribantu

“Bate tantã, tambor
Bate pé no andor
Vamos bater perna
Vamos bota mais fé
É ou então não é

Que a vida é eterna
Vamos batê cabeça
Mexer cabaça
Sonar no oco do babaçu
Luz pra quem bebe auasca

Quem masca coca
Quem bebe e masca em Machu Picchu
Vez pra quem sofre e chora
Quem tá na escória


Quem tá por fora e dentro do Iglu
Som no tarol, na caixa
Sensor da malta caribantu”
Lenine


Foto montagem: Marie Ange Bordas / Poema & CIA

Vou com um passo…

“Vou com um passo como de ir parar
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-‘star
A vaga chuva fria…
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer …


Sim, tudo esqueço.Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu …] vou,
Fantasma de magia.


No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anônimo persiste …
Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.”
Fernando Pessoa


Fotos: Jochen Dietrich / Poema & CIA

Pássaro

“Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.


Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.’
Cecília Meireles


Fotos: Ana Regina Nogueira / Poema & CIA

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva

“Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…”
Fernando Pessoa


Gilberto Gil, “Refazenda” / Poema & CIA

“Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão

Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também

Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba”


Parem as rotativas / Poema & CIA

“Parem as rotativas!
Morreu um ator
Não, não daqueles que encenam em novelas
Mas sim, o intérprete de sua própria história
Aquele que encara a dura realidade das favelas
Ele era um trabalhador


Parem as rotativas!
Morreu um escultor
Não, não daqueles que esculpem mentiras
Mas sim, o operário que produz a vida material
Aquele que o seu próprio suor respira
Ele era um trabalhador

Parem as rotativas!
Morreu um cantor
Não, não daqueles que vivem de assédio
Mas sim, mais uma voz que queria ser ouvida
Aquele que via na luta o seu remédio
Era um de nós, um trabalhador
Vinni Corrêa / Fotos: Bel Pedrosa


“Brasília” / Poema & CIA

“Quartos de hotel são iguais
Dias são iguais
Os aviões são iguais
Meninas iguais
Não há muito que falar sobre o dia
Não há do que reclamar
Tudo caminha

E as horas passam devagar
Num ônibus de linha
Passos no corredor, alguém se aproxima
E uma voz estranha diz: “Bom Dia”
Posso pedir os jornais
Pedir o jantar
Ligar pra tantos ramais

Niguém pra falar
Sobre o vermelho que abre este dia
Tudo está no lugar em que não devia
O mundo sai pra trabalhar
Enquanto eu abro a água fria
Um estranho no espelho
Eu quase nem me conhecia
E uma voz estranha diz:
“Bom dia!”
(Os Paralamas do Sucesso) Fotos: Paulo Vitale


Gilberto Gil / Fotos: Sergio Pagano

A Novidade

“A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia

A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia


Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia


A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado”
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